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O CRACK DE 1929 

Descoberta histórica em Marliéria revive passado ‘babilônico’ da região, atingida seriamente pelo abalo do consumo de café, o nosso “aço” daqueles tempos.

por Hermes Quintão

UMA OUTRA CRISE, HÁ 80 ANOS. Em 1929, por causa do colapso da Bolsa de Nova York, milhões de norte-americanos perderam seus empregos, ficaram sem dinheiro até para o cafezinho e, com isso, pararam de vez de comprar o café que durante décadas levou prosperidade à então ‘Babilônia’ mineira, antigo nome de Marliéria, pólo regional da época.

Naquela ocasião, diante da crise internacional, de tanta coisa ruim acontecendo ao mesmo tempo, muita gente na Babilônia de Minas Gerais associou a má fase, a 'bagunçada geral' nas finanças, à péssima fama da Babilônia da Bíblia. O problema foi que a troca do nome para Marliéria, em 1923, não resolveu os problemas em torno da prosperidade perdida pela sociedade 'babilônica'. O caos financeiro desencadeado pela crise do café arruinou famílias inteiras em Marliéria e região ao longo das décadas de 20 e 30, forçando a migração de muita gente para as cidades que formariam o pólo industrial do Vale do Aço.

Informa Aníbal de Almeida Fernandes, em artigo publicado em maio de 2006, "que a crise do café começa na realidade em 1920, devido ao contínuo, descontrolado e excessivo aumento da safra de café que chegava a espantosos 21 milhões de sacas para um consumo mundial de 22 milhões. O achatamento dos negócios provocava a ruína, a desonra e a desgraça das famílias abastadas e muitos se suicidavam ao se verem na miséria. Alguns, em desespero, chegavam a recorrer ao jogo para tentar salvar o patrimônio do naufrágio final.



  • Para enfrentar a crise o governo brasileiro mandou queimar milhões de toneladas de sacas de cafés, suficientes para suprir a demanda mundial por três anos

 

Da crise do café até a do aço





Como se vê, oitenta anos atrás, uma crise internacional já rondava a região no entorno da ‘Babilônia’, que mais tarde seria chamada de Região Metropolitana do Vale do Aço devido à riqueza gerada pelas siderúrgicas Acesita e Usiminas, instaladas a partir da década de 40 meio como um 'PAC pré-histórico'. A diferença das crises é que na de 1929 o café era a bola da vez, o produto responsável por levantar e derrubar a economia da então ‘metrópole agrária’ regional. Oitenta anos depois, o produto em questão é o aço, cujo mercado se retraiu em nível mundial.

No turbilhão da crise que dá sinais preocupantes em 2009, a metrópole regional já não é mais a esquecida ‘Babilônia’, muito menos Marliéria. Mas a industrializada Região Metropolitana do Vale do Aço, que congrega municípios que ainda não existiam nas décadas de 20 e 30, como Ipatinga, Coronel Fabriciano e Timóteo. Nas últimas cinco décadas eles prosperaram em função principalmente da siderurgia e agora, devido à crise internacional, vivem literalmente um ‘inferno astral’ parecido com o enfrentado pelos ‘pioneiros babilônicos’.

Para se ter uma idéia, apenas entre janeiro e março deste ano quase 16 mil pessoas perderam seus empregos na região, o que diminui drasticamente o poder de consumo da sociedade. Dessa forma, municípios como Coronel Fabriciano, que mesmo sem indústrias de aço em seus territórios dependem delas para ‘oxigenar’ os setores de comércio e prestação de serviços – bases da economia – enfrentam sérios apuros financeiros.


Em Fabriciano, a queda da receita orçamentária chega a 30% do que originalmente estava previsto para 2009. Para enfrentar os tempos difíceis o prefeito Chico Simões (PT) tem adotado uma série de medidas. Entre elas, um  controle rigoroso para fornecimento de vale-transporte aos servidores, fim das horas-extras e reajuste zero para o funcionalismo. Ele também não descarta promover demissões caso as finanças municipais não se recuperem.


Situação parecida é vivida por Timóteo, sede da Acesita (hoje ArcellorMital), que foi o primeiro município regional a se industrializar, ainda na década de 40, como estratégia do governo brasileiro da época para enfrentar os efeitos da crise cafeeira dos anos 30.Em abril, informa o prefeito Geraldo Hilário (PDT), a receita orçamentária do município caiu cerca  de 25%. No mês de março, depois de pagar todas as despesas, restaram apenas R$ 700 mil nos cofres públicos timotenses. Para o prefeito, a queda de arrecadação está diretamente ligada ao calvário da ArcellorMital, conglomerado siderúrgico que mais sente os efeitos da retração do consumo do aço em nível mundial.


Ipatinga é uma das cidades  que mais sofre com a crise


Embora há  80 anos  a economia não fosse tão globalizada como hoje, a crise atual vivida por Ipatinga e região guarda muitas semelhanças  com aquela enfrentada pela então ‘metrópole agrária’ regional, Babilônia.A principal diferença é que, em vez de metalúrgicos, no passado foram os catadores e produtores de café que ficaram sem ter o que fazer, estagnando assim, a economia ‘babilônica’, que literalmente pegou fogo. Na crise dos anos 30, o governo mandou fazendeiros queimarem estoques e plantações inteiras de café para forçar a elevação dos preços do produto no mercado internacional (que tinham caído a um terço do valor em que eram cotadas pouco antes da crise econômica mundial de 1929). No total, em todo o Brasil, foi contabilizada a queima de nada menos que 71 milhões 68 mil e 581 sacas de café, suficientes para garantir o consumo mundial do produto durante três anos.


Município de 240 mil habitantes crescido no entorno da Usiminas, bem na junção dos rios Doce e Piracicaba, Ipatinga tem na siderurgia a base da sua economia. Por isso mesmo, é um dos municípios brasileiros que mais sofre com a crise internacional.Para se ter uma idéia, na semana passada a Usiminas – principal empregador e motor propulsor da economia local - anunciou prejuízo da ordem de R$ 112 milhões nos primeiros três meses de 2009.A siderúrgica, que já demitiu cerca de 600 trabalhadores no município, agora está promovendo um Plano de Desligamento Voluntário (PDV) com objetivo de enxugar e adaptar o seu quadro de pessoal à demanda atual. Afinal de contas, dois dos três  alto fornos da fábrica ipatinguense estão parados e devem continuar inoperantes durante todo o ano de 2009 pelo simples fato de não haver mercado para escoar a produção.





Inevitavelmente, com os negócios em torno do aço  estagnados, a queda da Receita Orçamentária ipatinguense acaba prejudicada. A previsão total para 2009, que era de R$ 541.526 milhões, apresentava queda de arrecadação da ordem de 35% já nos dois primeiros meses deste ano. Isso significa que em janeiro e fevereiro de 2009, de cada R$ 10 previstos para entrar nos cofres públicos ipatinguenses, R$ 3,5 simplesmente não foram arrecadados. Além de receber menos dinheiro com o Fundo de Participação dos Municípios, Ipatinga também está recolhendo menos impostos em função de a Usiminas ter reduzido à metade sua produção, inclusive desligando três alto-fornos.


De Onça Grande à Babilônia



A redescoberta de que Marliéria, cidade do Vale do Aço com menos de 4 mil habitantes onde fica boa parte do Parque Estadual do Rio Doce, santuário ecológico que guarda a terceira maior concentração de lagos do Brasil, um dia já foi Babilônia aconteceu por acaso, como informou o leitor Ênio Quintão Torres. Em e-mail enviado à redação, o descendente dos antigos babilônios relatou que durante reforma de um sobrado localizado em Marliéria, construído no século XIX, foi encontrada uma inscrição de 102 anos de idade, onde se lê: BABILÔNIA 14 DEZEMBRO DE 1907".



“Caro redator, recentemente, durante a reforma de restauração do sobrado edificado no final do século XIX no estilo Casa Grande, característico da época do apogeu do café no país, na cidade de Marliéria, ao retirar o forro de esteira de taquara do teto do andar superior, os carpinteiros, surpresos, depararam-se com uma inscrição na peça mestra: “Babilônia, 14-12-1907. Babilônia era o nome do município de Marliéria, sendo que a primeira denominação do povoado foi Onça Grande (nome do ribeirão que corta a cidade)”.



Marliéria, antiga Babilõnia, tem hoje menos de quatro mil habitantes, mas foi no passado um pólo regional por causa da cultura do café

Quando aconteceu a troca de nome, em 1923, embora oficialmente continuasse um distrito, para os padrões demográficos dos anos 20, quando a população brasileira era essencialmente rural e não passava de 30 milhões de habitantes, Babilônia ou Marliéria bem podia ser considerada uma espécie de metrópole regional. No e-mail, Ênio revela que a eletricidade chegou por aquelas bandas já no século XIX, com os cafeicultores construindo mini-usinas hidrelétricas em suas propriedades para alimentar as máquinas de beneficiamento do café.Guardadas as devidas proporções, pode-se até afirmar que lembrava a Babilônia da Mesopotâmia, que no reinado de Nabucodonossor II era uma maravilha para os olhos dos viajantes, sobretudo seus legendários Jardins Suspensos. "Além do tamanho, escreveu o historiador Heródoto, em 450 a.C., a Babilônia ultrapassa em esplendor qualquer cidade do mundo conhecido até hoje". 


Conforme explica a professora aposentada Marta Castro Pereira, que nasceu quatro anos após Babilônia virar Marliéria, no ano de 1888 um professor chegou ao Arraial de Onça Grande (primeira denominação do município) e ficou horrorizado  com aquele nome.Na visão desse professor visionário, que viu nas montanhas, a exuberância das flores e plantas do arraial um enorme potencial de atração de turistas da Corte do Rio de Janeiro e de outras províncias do império brasileiro, a denominação Onça Grande era inadequada para nomear tanta coisa bonita. Para o professor, as belezas naturais do lugar eram tantas que lembrariam mais os lendários Jardins Suspensos da Babilônia, considerados (ao lado das pirâmides do Egito) uma das sete maravilhas do mundo antigo.De tanto o professor repetir essa história para políticos e homens influentes de sua época, em 1891 o povoado de Onça Grande - fundado em 1865 pelo médico Germano de Souza Baltazar - foi elevado à categoria de distrito com o nome de Babilônia.


Porém, a nova denominação homenageando a exuberância do meio ambiente, das florestas e lagos que mais tarde dariam origem ao Parque Estadual do Rio Doce, atualmente a maior reserva de Mata Atlântica do Brasil, não foi muito bem compreendida pelos moradores locais. Afinal de contas, segundo os ensinamentos da Bíblia, Babilônia simbolizaria bagunça, desordem, caos, enfim, lugar de confusão. E assim, em 7 de setembro de 1923, o distrito teve a sua denominação alterada para Marliéria. 


Mais de 120 anos de atraso


Marliéria renegou seu passado babilônico em 1923 e nos anos seguintes continuou gozando de prosperidade porque sua economia estava polarizada em torno da cultura do café. Mas aí veio o ano de 1929, o crack da Bolsa de Nova York, a primeira grande recessão global. Os americanos perderam seus empregos e ficaram sem dinheiro até para o cafezinho. Na década de 50 o distrito de Marliéria virou município, mas mesmo assim nunca mais recuperou a exuberância dos tempos pré-crise do café. Como resultado, hoje a economia marlierense é fortemente dependente do Fundo de Participação dos Municípios (FPM).

Diante de um cenário tão negativo, atualmente os marlierenses começam a prestar mais atenção ao seu passado babilônico. Prova disso é que recentemente, com um atraso de mais de 120 anos, um departamento de turismo recém-criado pela nova administração municipal se uniu a pesquisadores e universitários do Unileste-MG para elaborar um inventário turístico do município.O grupo vai mapear tudo aquilo que o tal professor desconhecido que chegou à cidade em 1888 viu de belo para então associar as belezas do lugar não a uma Onça Grande, mas aos Jardins Suspensos da Babilônia.



Casarões do século XIX, construídos no auge do Ciclo do Café, ainda podem ser visto em Marliéria, sobretudo na zona rural

Mais do que espalhar aos quatro ventos as belezas do lugar, como fez o professor de 1888 para convencer os políticos de sua época a transformar o Arraial de Onça Grande em Babilônia, Marliéria, finalmente, está criando condições para que os turistas se sintam atraídos em colocar os pés na estrada para ir conhecer as belezas presentes em seu território. Uma antiga rota de acesso ao Parque do Rio Doce, que sai de Marliéria e cruza a Serra do Jacroá, por exemplo, está sendo pavimentada pelo governo do Estado, dentro do programa Pró-Acesso. Depois de pronta, facilitará a vida de quem quer se hospedar nas inúmeras pousadas ou ‘hotéis rurais’ existentes ao longo da via por onde passavam tropeiros com seus burros carregados de café em direção à Estrada de Ferro Vitória-Minas.

Além de proporcionar ao viajante visões paradisíacas, paisagens quase místicas da fauna e flora da antiga Babilônia, o lugar ainda é carregado de história, como a que conta que Guido Marlière, oficial francês homenageado no atual nome de Marliéria, deparou-se com a beleza do Vale e não conseguiu se conter. Um belo dia, do alto da serra do Jacroá,  Marliére viu o que descreveria, mais tarde, como "Uma planície esplendorosa, salpicada de lagoas, qual manto verde com nódulos azuis-celestes". Com o encantamento de tanta beleza, ele caiu de joelhos e proclamou: "Je crois en Dieu" (Eu creio em Deus). Este som foi gravado em francês pelas pessoas que estavam à sua volta. Era algo parecido com "Jacroá" e acabou dando nome à serra. Em razão disto, foi construído, no alto do então Pico do Jacroá, um belo mirante, sendo que do seu alto pode-se avistar cerca de 30 a 42 lagoas existentes no Parque do Rio Doce.


 
Lagoa do Bispo


Do mirante do Pico da Serra do Jacroá se vê o mesmo que os tropeiros há mais de 100 anos: quase todas as lagoas da reserva ambiental que mais tarde viria a se chamar Parque Estadual do Rio Doce. O bispo Dom Helvécio, conhecido como um dos primeiros ecologistas brasileiros, freqüentemente era visto nessa rota, já que era um ‘turista’ apaixonado pelas ‘belezas babilônicas’. Foi ele quem primeiro se preocupou em preservar a natureza exuberante do município. Conta a história que em 1930 o Arcebispo de Mariana, Dom Helvécio Gomes de Oliveira registrou essa área onde hoje se localiza o Parque Estadual do Rio Doce no livro de Tombos da Arquidiocese de Mariana que, nos “respingos da beleza desejada, num cochilo maravilhoso da mãe natureza, salpicam o verde de nossas lagoas...”

Dom Helvécio Gomes de Oliveira nasceu em Anchieta, Espírito Santo, no ano de 1876.Era filho de José Gomes de Oliveira, tenente-coronel ex-combatente da Guerra do Paraguai e de Maria Mattos de Oliveira. Estudou no colégio Santa Rosa, dos Padres Salesianos, em Niterói e depois em Turim, na Itália (1888-1894), obteve graduação na Universidade Gregoriana de Roma. Foi ordenado padre salesiano e designado, inicialmente, para a evangelização dos indígenas no Mato Grosso. Trabalhou como professor, a partir de 1903, em São Paulo, oportunidade em que se ocupou na imprensa católica. Em 1918 foi nomeado Bispo de Corumbá e depois do Maranhão. Em 1922, depois de ter sido transferido para Mariana para exercer as funções de Bispo coadjutor de Dom Silvério Gomes Pimenta, assumiu a Arquidiocese por falecimento do antecessor neste mesmo ano.


Historiador Roberto Paiva fala sobre passado babilônico



Roberto Paiva é ex-vereador de Timóteo, historiador e atual gerente do Departamento de Cultura da prefeitura local


"Importante região do Estado de Minas Gerais, a região da Bacia do Rio Doce, que abriga hoje a microrregião do Vale do Aço, surgiu com suas pequenas vilas, povoados e cidades, entre estas, Babilônia, que era referência comercial agrícola e de prosperidade, aconchegante por suas belezas naturais exuberantes, córregos, rios, matas, montanhas e lagoas, surgiu das atividades dos tropeiros, viajantes, agricultores, mineradores, como os que são citados na obra de MARIA CELESTE DE ABREU : SERTÃO BRAVO DO RIO DOCE (pp:184 e 185)

Segundo a autora: “Na história de Marliéria e Jaguaraçu, ocorreu um inexplicável equívoco. Os Edis responsáveis pela elaboração das leis, que deu a denominação das duas cidades, cometeram um lapso, gerando um erro que não foi corrigido. Jaguaraçu, que na língua indígena quer dizer onça grande, seria o nome dado a primeira cidade que se chamou Onça Grande depois Marliéria. O nome Marliéria se daria a segunda cidade, porque ali por um  longo tempo localizou-se o Quartel Mestre da Onça Pequena, próximo do Porto de Canoas, às margens do Rio Piracicaba. Foi o primeiro Quartel onde Marliérie residiu, ali passando grande parte do seu tempo de comando, quando veio para o Rio Doce”.

O que podemos perceber é que Marliéria, que foi “Onça Grande”, que foi Babilônia e o deixou de ser pela força do contexto histórico-político e econômico da época, poderia ter mantido tranquilamente o nome de Babilônia, que recebeu na época por suas riquezas naturais que são ainda nos tempos atuais, o que a coloca como principal cidade com perfil ecológico, turístico e natural da região do Rio Doce.

Com certeza surgiu no contexto do Brasil da República Velha, do Império decadente, da força da Política do Café com Leite, que foi atingida em cheio pela crise de 1929, em função do seu perfil agrário, monocultor da época, mas que tem em sua essência para os tempos atuais a sua grandeza natural, o seu clima sem igual e, principalmente, a sua riqueza cultural. Importante ressaltar que Marliéria é uma das cidades que tem um grande número de pessoas com curso superior proporcionalmente à sua população.

Acredito que por todas essas condições favoráveis, Marliéria, que foi Onça Grande, que foi Babilônia, poderia com certeza estar com este nome que lhe foi dado, não por seus jardins suspensos, mas por ser uma cidade emoldurada pelas riquezas de seu paisagismo natural e pela também riqueza cultural de seu povo e de sua história.
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