O CRACK DE 1929
Descoberta histórica em Marliéria revive passado ‘babilônico’ da região, atingida seriamente pelo abalo do consumo de café, o nosso “aço” daqueles tempos.
por Hermes Quintão
UMA OUTRA CRISE, HÁ 80 ANOS. Em 1929, por causa do colapso da Bolsa de Nova York, milhões de norte-americanos perderam seus empregos, ficaram sem dinheiro até para o cafezinho e, com isso, pararam de vez de comprar o café que durante décadas levou prosperidade à então ‘Babilônia’ mineira, antigo nome de Marliéria, pólo regional da época. Naquela ocasião, diante da crise internacional, de tanta coisa ruim acontecendo ao mesmo tempo, muita gente na Babilônia de Minas Gerais associou a má fase, a 'bagunçada geral' nas finanças, à péssima fama da Babilônia da Bíblia. O problema foi que a troca do nome para Marliéria, em 1923, não resolveu os problemas em torno da prosperidade perdida pela sociedade 'babilônica'. O caos financeiro desencadeado pela crise do café arruinou famílias inteiras em Marliéria e região ao longo das décadas de 20 e 30, forçando a migração de muita gente para as cidades que formariam o pólo industrial do Vale do Aço. ![]() |
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Da crise do café até a do aço
![]() | Como se vê, oitenta anos atrás, uma crise internacional já rondava a
região no entorno da ‘Babilônia’, que mais tarde seria chamada de
Região Metropolitana do Vale do Aço devido à riqueza gerada pelas
siderúrgicas Acesita e Usiminas, instaladas a partir da década de 40
meio como um 'PAC pré-histórico'. A diferença das crises é que na de
1929 o café era a bola da vez, o produto responsável por levantar e
derrubar a economia da então ‘metrópole agrária’ regional. Oitenta anos
depois, o produto em questão é o aço, cujo mercado se retraiu em nível
mundial.
No turbilhão da crise que dá sinais preocupantes em 2009, a metrópole
regional já não é mais a esquecida ‘Babilônia’, muito menos Marliéria.
Mas a industrializada Região Metropolitana do Vale do Aço, que congrega
municípios que ainda não existiam nas décadas de 20 e 30, como
Ipatinga, Coronel Fabriciano e Timóteo. Nas últimas cinco décadas eles
prosperaram em função principalmente da siderurgia e agora, devido à
crise internacional, vivem literalmente um ‘inferno astral’ parecido
com o enfrentado pelos ‘pioneiros babilônicos’. |
Em Fabriciano, a queda da receita orçamentária chega a 30% do que originalmente estava previsto para 2009. Para enfrentar os tempos difíceis o prefeito Chico Simões (PT) tem adotado uma série de medidas. Entre elas, um controle rigoroso para fornecimento de vale-transporte aos servidores, fim das horas-extras e reajuste zero para o funcionalismo. Ele também não descarta promover demissões caso as finanças municipais não se recuperem. ![]() | ![]() Situação parecida é vivida por Timóteo, sede da Acesita (hoje
ArcellorMital), que foi o primeiro município regional a se
industrializar, ainda na década de 40, como estratégia do governo
brasileiro da época para enfrentar os efeitos da crise cafeeira dos
anos 30.Em abril, informa o prefeito Geraldo Hilário (PDT), a receita
orçamentária do município caiu cerca de 25%. No mês de março, depois
de pagar todas as despesas, restaram apenas R$ 700 mil nos cofres
públicos timotenses. Para o prefeito, a queda de arrecadação está
diretamente ligada ao calvário da ArcellorMital, conglomerado
siderúrgico que mais sente os efeitos da retração do consumo do aço em
nível mundial. |
Ipatinga é uma das cidades que mais sofre com a crise
Embora há 80 anos a economia não fosse tão globalizada como hoje, a crise atual vivida por Ipatinga e região guarda muitas semelhanças com aquela enfrentada pela então ‘metrópole agrária’ regional, Babilônia.A principal diferença é que, em vez de metalúrgicos, no passado foram os catadores e produtores de café que ficaram sem ter o que fazer, estagnando assim, a economia ‘babilônica’, que literalmente pegou fogo. Na crise dos anos 30, o governo mandou fazendeiros queimarem estoques e plantações inteiras de café para forçar a elevação dos preços do produto no mercado internacional (que tinham caído a um terço do valor em que eram cotadas pouco antes da crise econômica mundial de 1929). No total, em todo o Brasil, foi contabilizada a queima de nada menos que 71 milhões 68 mil e 581 sacas de café, suficientes para garantir o consumo mundial do produto durante três anos. ![]()
| ![]() Inevitavelmente, com os negócios em torno do aço estagnados, a queda da Receita Orçamentária ipatinguense acaba prejudicada. A previsão total para 2009, que era de R$ 541.526 milhões, apresentava queda de arrecadação da ordem de 35% já nos dois primeiros meses deste ano. Isso significa que em janeiro e fevereiro de 2009, de cada R$ 10 previstos para entrar nos cofres públicos ipatinguenses, R$ 3,5 simplesmente não foram arrecadados. Além de receber menos dinheiro com o Fundo de Participação dos Municípios, Ipatinga também está recolhendo menos impostos em função de a Usiminas ter reduzido à metade sua produção, inclusive desligando três alto-fornos. ![]() |
De Onça Grande à Babilônia
A redescoberta de que Marliéria, cidade do Vale do Aço com menos de 4 mil habitantes onde fica boa parte do Parque Estadual do Rio Doce, santuário ecológico que guarda a terceira maior concentração de lagos do Brasil, um dia já foi Babilônia aconteceu por acaso, como informou o leitor Ênio Quintão Torres. Em e-mail enviado à redação, o descendente dos antigos babilônios relatou que durante reforma de um sobrado localizado em Marliéria, construído no século XIX, foi encontrada uma inscrição de 102 anos de idade, onde se lê: BABILÔNIA 14 DEZEMBRO DE 1907". “Caro redator, recentemente, durante a reforma de restauração do sobrado edificado no final do século XIX no estilo Casa Grande, característico da época do apogeu do café no país, na cidade de Marliéria, ao retirar o forro de esteira de taquara do teto do andar superior, os carpinteiros, surpresos, depararam-se com uma inscrição na peça mestra: “Babilônia, 14-12-1907. Babilônia era o nome do município de Marliéria, sendo que a primeira denominação do povoado foi Onça Grande (nome do ribeirão que corta a cidade)”. | ![]() Marliéria, antiga Babilõnia, tem hoje menos de quatro mil habitantes, mas foi no passado um pólo regional por causa da cultura do café |
Quando aconteceu a troca de nome, em 1923, embora oficialmente continuasse um distrito, para os padrões demográficos dos anos 20, quando a população brasileira era essencialmente rural e não passava de 30 milhões de habitantes, Babilônia ou Marliéria bem podia ser considerada uma espécie de metrópole regional. No e-mail, Ênio revela que a eletricidade chegou por aquelas bandas já no século XIX, com os cafeicultores construindo mini-usinas hidrelétricas em suas propriedades para alimentar as máquinas de beneficiamento do café.Guardadas as devidas proporções, pode-se até afirmar que lembrava a Babilônia da Mesopotâmia, que no reinado de Nabucodonossor II era uma maravilha para os olhos dos viajantes, sobretudo seus legendários Jardins Suspensos. "Além do tamanho, escreveu o historiador Heródoto, em 450 a.C., a Babilônia ultrapassa em esplendor qualquer cidade do mundo conhecido até hoje".
![]() | Conforme explica a professora aposentada Marta Castro
Pereira, que nasceu quatro anos após Babilônia virar Marliéria, no ano
de 1888 um professor chegou ao Arraial de Onça Grande (primeira
denominação do município) e ficou horrorizado com aquele nome.Na
visão desse professor visionário, que viu nas montanhas, a exuberância
das flores e plantas do arraial um enorme potencial de atração de
turistas da Corte do Rio de Janeiro e de outras províncias do império
brasileiro, a denominação Onça Grande era inadequada para nomear tanta
coisa bonita. Para o professor, as belezas naturais do lugar
eram tantas que lembrariam mais os lendários Jardins Suspensos da
Babilônia, considerados (ao lado das pirâmides do Egito) uma das sete
maravilhas do mundo antigo.De tanto o professor repetir essa
história para políticos e homens influentes de sua época, em 1891 o
povoado de Onça Grande - fundado em 1865 pelo médico Germano de Souza
Baltazar - foi elevado à categoria de distrito com o nome de Babilônia. |

Porém, a nova denominação homenageando a exuberância do meio ambiente, das florestas e lagos que mais tarde dariam origem ao Parque Estadual do Rio Doce, atualmente a maior reserva de Mata Atlântica do Brasil, não foi muito bem compreendida pelos moradores locais. Afinal de contas, segundo os ensinamentos da Bíblia, Babilônia simbolizaria bagunça, desordem, caos, enfim, lugar de confusão. E assim, em 7 de setembro de 1923, o distrito teve a sua denominação alterada para Marliéria.
Marliéria
renegou seu passado babilônico em 1923 e nos anos seguintes continuou
gozando de prosperidade porque sua economia estava polarizada em torno
da cultura do café. Mas aí veio o ano de 1929, o crack da Bolsa de Nova
York, a primeira grande recessão global. Os americanos perderam seus
empregos e ficaram sem dinheiro até para o cafezinho. Na década de 50 o
distrito de Marliéria virou município, mas mesmo assim nunca mais
recuperou a exuberância dos tempos pré-crise do café. Como resultado,
hoje a economia marlierense é fortemente dependente do Fundo de
Participação dos Municípios (FPM).
Diante de um cenário tão
negativo, atualmente os marlierenses começam a prestar mais atenção ao
seu passado babilônico. Prova disso é que recentemente, com um atraso
de mais de 120 anos, um departamento de turismo recém-criado pela nova
administração municipal se uniu a pesquisadores e universitários do
Unileste-MG para elaborar um inventário turístico do município.O
grupo vai mapear tudo aquilo que o tal professor desconhecido que
chegou à cidade em 1888 viu de belo para então associar as belezas do
lugar não a uma Onça Grande, mas aos Jardins Suspensos da Babilônia.
Casarões do século XIX, construídos no auge do Ciclo do Café, ainda podem ser visto em Marliéria, sobretudo na zona rural
Mais
do que espalhar aos quatro ventos as belezas do lugar, como fez o
professor de 1888 para convencer os políticos de sua época a
transformar o Arraial de Onça Grande em Babilônia, Marliéria,
finalmente, está criando condições para que os turistas se sintam
atraídos em colocar os pés na estrada para ir conhecer as belezas
presentes em seu território. Uma antiga rota de acesso ao Parque
do Rio Doce, que sai de Marliéria e cruza a Serra do Jacroá, por
exemplo, está sendo pavimentada pelo governo do Estado, dentro do
programa Pró-Acesso. Depois de pronta, facilitará a vida de quem quer
se hospedar nas inúmeras pousadas ou ‘hotéis rurais’ existentes ao
longo da via por onde passavam tropeiros com seus burros carregados de
café em direção à Estrada de Ferro Vitória-Minas.
Além de
proporcionar ao viajante visões paradisíacas, paisagens quase místicas
da fauna e flora da antiga Babilônia, o lugar ainda é carregado de
história, como a que conta que Guido Marlière, oficial francês
homenageado no atual nome de Marliéria, deparou-se com a beleza do Vale
e não conseguiu se conter. Um belo dia, do alto da serra do
Jacroá, Marliére viu o que descreveria, mais tarde, como "Uma planície
esplendorosa, salpicada de lagoas, qual manto verde com nódulos
azuis-celestes". Com o encantamento de tanta beleza, ele caiu de
joelhos e proclamou: "Je crois en Dieu" (Eu creio em Deus). Este som
foi gravado em francês pelas pessoas que estavam à sua volta. Era algo
parecido com "Jacroá" e acabou dando nome à serra. Em razão disto, foi
construído, no alto do então Pico do Jacroá, um belo mirante, sendo que
do seu alto pode-se avistar cerca de 30 a 42 lagoas existentes no
Parque do Rio Doce.

![]() | Lagoa do Bispo
Dom Helvécio Gomes de Oliveira nasceu em Anchieta, Espírito Santo, no ano de 1876.Era filho de José Gomes de Oliveira, tenente-coronel ex-combatente da Guerra do Paraguai e de Maria Mattos de Oliveira. Estudou no colégio Santa Rosa, dos Padres Salesianos, em Niterói e depois em Turim, na Itália (1888-1894), obteve graduação na Universidade Gregoriana de Roma. Foi ordenado padre salesiano e designado, inicialmente, para a evangelização dos indígenas no Mato Grosso. Trabalhou como professor, a partir de 1903, em São Paulo, oportunidade em que se ocupou na imprensa católica. Em 1918 foi nomeado Bispo de Corumbá e depois do Maranhão. Em 1922, depois de ter sido transferido para Mariana para exercer as funções de Bispo coadjutor de Dom Silvério Gomes Pimenta, assumiu a Arquidiocese por falecimento do antecessor neste mesmo ano. |
Historiador Roberto Paiva fala sobre passado babilônico
Roberto Paiva é ex-vereador de Timóteo, historiador e atual gerente do Departamento de Cultura da prefeitura local ![]() | "Importante região do Estado de Minas Gerais, a região da Bacia do Rio Doce, que abriga hoje a microrregião do Vale do Aço, surgiu com suas pequenas vilas, povoados e cidades, entre estas, Babilônia, que era referência comercial agrícola e de prosperidade, aconchegante por suas belezas naturais exuberantes, córregos, rios, matas, montanhas e lagoas, surgiu das atividades dos tropeiros, viajantes, agricultores, mineradores, como os que são citados na obra de MARIA CELESTE DE ABREU : SERTÃO BRAVO DO RIO DOCE (pp:184 e 185) |












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